Trupes de Reis em Ovar

Três antigos reiseiros de Ovar.

Cantar dos Reis é uma tradição de Ovar que já tem mais de 100 anos, algo que, de facto, não é normal. É um grupo de pessoas, a que se chama “Trupe” de Reis ou “Trupe” Reiseira, que se começa a juntar alguns meses antes da época natalícia para preparar três canções diferentes, completamente originais, e de uma enorme qualidade sob o ponto de vista musical.
Inicialmente tinha alguma semelhança com as tão conhecidas “Janeiras” que se usam e têm raízes um pouco por todo o país, mas adquiriu características próprias e originais em Ovar.

A data de 1893 está associada à organização de um grupo de rapazes e raparigas que faziam parte da elite vareira ligada ao teatro e à música. O nome de João Alves Cerqueira, um conceituado comerciante da praça vareira de então, e do poeta António Dias Simões, fizeram então nascer a primeira Trupe, conhecida pela dos “Reis dos Alves” ou “Trupe dos Velhos”. Esta trupe já incluía um coro, alguns instrumentos de cordas, como bandolins, violões e violinos e vozes solistas. Os papéis de letrista, compositor e ensaiador estavam já constituídos como fundamentais para que a Trupe de Reis se pudesse apresentar cantando em casas particulares e nos cafés locais.

A “Trupe dos velhos” reiseiros. António Dias Simões é o 1.º da direita em baixo, de pé. João Alves Cerqueira é o 2.º da direita em cima, de pé.

Entre os anos de 1930 e 1960, outras trupes começaram a surgir, sobretudo ligadas a coletividades e associações, tais como a do Orfeão de Ovar, da A.D.O. (Associação Desportiva Ovarense), do Comércio e Indústria e da J.O.C./ L.O.C ( Juventude Operária Católica).

O Cantar dos Reis em Ovar distingue-se dos restantes pelo facto de, apesar de serem imbuídas de um saudável amadorismo e surgidas de forma espontânea, exigem, de si mesmas, alguma qualidade e originalidade interpretativa e melodiosa. Todas as exibições são antecipada e minuciosamente ensaiadas.

O acompanhamento instrumental é variado e inclui o violão, o bandolim, a bandola e o violino. Mais recentemente, começou também a aparecer a flauta e o clarinete. O desempenho vocal é muito importante e manifesta-se em bonitas exibições de solistas e coros, cujas toadas, em jeito de balada, têm letras e músicas inéditas ou, por vezes, adaptadas.

Por norma, a primeira canção é A Saudação, onde é louvada a Noite Santa dos Reis e são saudados os presentes; a segunda é A Mensagem, onde se celebra o nascimento do Menino Jesus e os seus ensinamentos e a terceira é O Agradecimento, em tom bastante mais ligeiro, no qual são pedidas as ofertas habituais e é agradecida a hospitalidade dos que recebem a Trupe.

Destacamos, aqui, algumas figuras incontornáveis para a história do Cantar dos Reis em Ovar: a D. Amélia Dias Simões (filha do poeta António Dias Simões) e a sua filha, D. Edwiges Helena, ativas propagadoras da tradição dos Reis, elaboraram largas dezenas de músicas e letras, que muito contribuíram para a definição de um modelo musical e performativo, hoje reconhecido como “de culto”.

A D. Maria Amélia Dias Simões e a sua filha D. Edwiges Helena Pacheco

Aqui deixamos outros nomes importantes para que esta tradição se tenha mantido viva e reconhecida, são: José Augusto de Almeida, o “Zé Augusto do Museu”, José Maria Fernandes da Graça,  Manuel Redes, José Ferreira Soares, o “Zé da Vesga”, José Muge, o “Zé Muge”, Padre Manuel Bastos, Américo Oliveira, João Costa, entre tantos outros…

A qualidade das Trupes de Reis de Ovar desde cedo cativou e impressionou o público e, o que representava um simples ato de cantar/desejar as Boas Festas a favor de obras sociais, cresceu e tornou-se num evento de cariz cultural.

Trupe do Orfeão de Ovar, nos finais dos anos setenta. Américo Oliveira, está em 1.º plano.

Assim, as Trupes passaram a apresentar-se num espaço comum, nas Praças, no Salão Nobre dos Paços do Município, no (antigo) Cine-Teatro.

Como sempre, no dia 6 de janeiro, Dia de Reis, terminam todos com a atuação no Centro de Arte de Ovar (CAO) e na Praça da República, onde todos podem assistir e apreciar uma tradição com cerca de 125 anos de existência.

A expressão “trupe” tem origem na palavra francesa troupe, e significa um grupo de artistas que actuam em conjunto.
“trupe”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://dicionario.priberam.org/trupe [consultado em 23-11-2018].

Candidato a Património Cultural Imaterial

Ovar, em 2017, já contava com cerca de 700 reiseiros divididos por 17 trupes de adultos e 9 trupes infantis que se juntavam para ensaiar e tocar músicas originais de início de ano. A Câmara Municipal admitiu que estava na hora de prestar a devida homenagem a uma tradição muito enraizada na comunidade vareira.

No final de 2016, o presidente do Município, Salvador Malheiro, submeteu a sua candidatura, que foi recebida como muito orgulho pela população vareira, a Património Cultural Imaterial, considerando que, em Ovar, o “Cantar dos Reis” adquiriu um recorte cultural muito próprio, sofisticado ao nível da composição musical e poético ao nível da sua interpretação.

Entendeu-se que houve uma extraordinária evolução desta tradição ao longo dos últimos cem anos e que tem vindo a ganhar uma nova dimensão sóciocultural e humana, o que a torna única entre outras formas de cantar os reis no nosso país.

Uma comissão de análise preparou o processo de candidatura, reunindo e analisando uma série de documentação escrita e musical. Aguardemos, então, com grande expectativa…

Aqui fica este documentário sobre a história desta tradição secular:


Aguarda-se a aprovação da candidatura do “Cantar os Reis” em Ovar, a Património Cultural Imaterial.

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